Poço 115 – Um álbum imaginário para a comunidade visível

Quem partilha a construção de pontes, registra o encontro de trajetos contrários. Alguém vem de lá, outro vai de cá. Fluxo e contrafluxo como este mesmo mar sobre a areia, renitente. Como este vento incessante e brando, esse livro se espalha entre as pontes, entre a nossa Velha Ponte Metálica e a Ponte dos Ingleses. Este mesmo vento que areja as casas do Poço, conecta gerações de ancestrais e vizinhos, faz pontes diversas entre essas páginas. Contra mega-construções turísticas (e através de suas ruínas), é com pouco concreto que a comunidade visível ergue sua obra, sua Fortaleza de memórias, seu álbum-imaginário. Ao olharmos as fotografias nessa pesquisa, percebamos as pontes, os trilhos, as vielas e veredas construídas entre elas. Sua argamassa são afetos emaranhados, são os laços dessa vizinhança centenária de pele escura.

Olha lá o Poço da Draga, vazando nas dezenas de álbuns fotográficos de Ivoneide Gois! Vê lá Fortaleza, década a década do meio do século XX pra cá, saltando dos murais de fotos nas casas vizinhas! Olha lá o Baixa Pau no Celular de João Brito, velho meia-esquerda do Brasileirinho! Vê lá Fortaleza nos álbuns escondidos nas caixas de sapato de Alvinho, presidente e trivela do Brasileirinho Futebol Clube. Vê o Baixa Pau nos álbuns e no celular de Cláudio He-man. Vê Fortaleza nas visitas guiadas de Sérgio Rocha, cheio de fotos antigas nas mãos. Olha o Poço nos filmes cheios de fotos de Victor de Melo! Vê Fortaleza nos álbuns de capoeiristas, em suas paredes, nos celulares dos triatletas, nos perfis de instagram dos surfistas! Eis o Poço, eis a Cidade, eis a comunidade visível.

Nos referimos ao pequeno bairro circunscrito entre o centro comercial e as ruínas de nosso primeiro porto – região historicamente marcada pelo movimento abolicionista cearense, que se fez ícone nacional nas figuras de José Luís Napoleão e Chico da Matilde (Dragão do Mar), território que hoje abriga população de pele preta. Há ali entre seus moradores um encontro entre a narrativa oral e a fotografia – um conjunto de práticas de imagem  relacionado aos esforços biográficos de seus narradores e a uma política de defesa territorial. A conservação e a transmissão de memória possui tônica ancestral, política e cultural no Poço da Draga – que marca o jeito de ser de muitos moradores. Os velhos memorialistas de esquina, de calçadas, de whatsapp, estão sempre a nos convidar, vizinhos e passantes, a imaginar a comunidade visível com eles.

É por isso que este álbum é imaginário em dois sentidos: Primeiro por ser tão parte dos trabalhos de memória de uma coletividade como os monumentos ou as fofocas; Segundo, porque, ao friccionarmos as fronteiras entre imagens de álbuns e celulares de moradores de uma mesma vizinhança, o que fazíamos era imaginar  que relações, que pontes poderiam surgir entre fotos reavizinhadas. Aproximamos assim velhas fotografias da família de Álvaro Graça, de Nilce e Cláudio Vasconcelos (He-man), de Ivoneide Gois, de Sérgio Rocha, para juntas nos permitirem imaginá-las como se viessem de um álbum só. O livro carrega também velhas e recentes imagens compartilhadas no grupo de whatsapp Resenha do Brasileirinho pelos seus 33 ex-jogadores e eternos craques do rei do sertão, time tantas vezes vitorioso nos campeonatos de futebol de subúrbio, fundado em 15 de novembro de 1982 no Poço e que hoje atravessa gerações. Este trabalho é também uma homenagem aos 115 anos do Poço, Baixa Pau como chamam por aqui, que para celebrar sua existência coletiva tomou emprestada a data de construção da Ponte Velha (Metálica), 26 de maio de 1906.  

No entanto, como em todo bom álbum de família, o que não não trazemos são os contextos históricos definitivos e as legendas que assegurem com clareza datas e fatos. É sempre bom lembrar que a imaginação se alimenta de um pouco de mistério. E é disso que consiste o convite que deixamos aos leitores destas fotografias: imaginem só, uma comunidade visível

Poço da Draga, Maio de 2021.
Álvaro Graça Jr. e Felipe Camilo.

***

Poço 115 – Um álbum imaginário para a comunidade visível. Pesquisa/Fotolivro [em finalização]. 2021.

Forjado e reforjado ao longo de 04 anos, sendo trabalho irmão de minha tese Comunidade Visível: Narradores de Imagens e Memórias do Poço da Draga (PPGS/UFC 2017-2021), o fotolivro possui dois pequenos volumes: I – Poço 115 – Um álbum imaginário para a Comunidade Visível; II – Resenha do Brasileirinho. Cada página, da tese e do fotolivro, não teria acontecido sem a parceria do morador do Poço e documentarista Álvaro Graça Júnior, coautor de Poço 115.

 

Next Post

Previous Post

© 2021 Felipe Camilo