Tempo Fértil (Outras Fotografias) – Livro de Artista


Paredes Brancas
Portas Abertas
Começa o tempo fértil

Minha relação com o haicai talvez seja mais de ordem íntima que de ordem pública. Apesar de ter publicado alguns deles no tomo “Coração de Rã” do fotolivro “Perecível” (2018), minha (com)pulsão pela escrita de micropoemas de sopros breves, em geral se encerra aí mesmo, sem grandes ímpetos de declamações, publicações e saraus. Escrevo haicais como quem fotografa sem fotografar, com os olhos, mas sem câmera. Uso palavras para condensar tempos, para quase enquadrá-los nas arestas de três versos. 

[a]
curta quarentena
tudo se volta pra dentro
ar, luz, pensamento

[b]
longa quarentena
corpo, voz, tudo se agita
até poesia irrita

Não gosto de pensar que carrego nesses escritos a precisão nipônica de um Bashô, descritivo, assertivo, contemplador da natureza. Não, minha métrica, de natureza impura, dura o que precisar. Sempre que penso em Tempo Fértil,  canto como Belchior, sem querer falar de coisas que aprendi, “quero lhe contar como eu vivi, e tudo o que aconteceu comigo”. Tempo Fértil nasce de um presente inusitado, uma velha agendinha de 1954 comprada em estado frágil num mercado de pulgas argentino em 2019. E nasce também durante a pandemia  entre 2020 e 2021, dado o isolamento social e seu potencial latente para a introspecção. Para que surgisse, foi necessária uma separação, uma mudança e outra união. Deste livro de artista, interferido por mim, saem dois conjuntos distintos de “outras fotografias”, “Tempo Fértil” e minha segunda “Haicaixa”. Trata-se de algo entre um diário de observação de pássaros, sonhos, dores e outros estados do corpo – Fotografias que eu não poderia fazer de outra forma. 

depois do poente
da luz só a memória
clareia a estrada

***

Tempo Fértil (outras fotografias). Livro de artista. Peça única. Técnica: Haicais sobre velha agenda modificada. 07x05cm. Felipe Camilo. 2020-2021.

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